AGRONEGÓCIO
China vem avaliar frigoríficos e exiger controle maior de resíduos no campo
Publicado em
14 de setembro de 2026por
Da Redação
Uma missão sanitária chinesa deverá iniciar no próximo domingo, 20, uma auditoria no sistema brasileiro de produção de carnes. A agenda prevista até o dia 28 de setembro envolve frigoríficos, laboratórios e propriedades rurais e poderá resultar na habilitação de novas unidades e na retomada das vendas de plantas temporariamente suspensas.
A lista apresentada às autoridades chinesas reúne 17 unidades industriais das cadeias bovina, suína e de aves. Entre as empresas envolvidas estão JBS, Minerva e MBRF. A aprovação, entretanto, não é automática e dependerá das conclusões dos técnicos sobre os controles sanitários mantidos pelo Brasil.
Ao menos três frigoríficos de bovinos estão no roteiro conhecido. A missão deverá visitar a unidade da JBS em Vilhena, Rondônia, impedida de exportar para a China desde maio, além das plantas da Minerva em Rolim de Moura, também em Rondônia, e do grupo MBRF em Promissão, São Paulo.
Outras unidades permanecem suspensas por Pequim, entre elas frigoríficos localizados em Pontes e Lacerda, Matupá e Várzea Grande, em Mato Grosso, e Araguari, em Minas Gerais. Na cadeia de aves, uma planta de Cafelândia, no Paraná, também está impedida de vender ao mercado chinês. Não há, atualmente, bloqueios a frigoríficos brasileiros de carne suína.
O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, afirmou que o governo espera conseguir a reabilitação de unidades suspensas e a aprovação de novas plantas. A visita também poderá abrir caminho para o início das exportações de miúdos bovinos e suínos, produtos que agregariam receita ao abate e hoje possuem menor valorização no mercado interno.
Para o produtor, a ampliação do número de frigoríficos habilitados pode representar maior concorrência pela compra de animais e mais alternativas de comercialização. O efeito tende a ser mais perceptível nas regiões próximas às unidades aprovadas, mas dependerá do volume efetivamente adquirido pela China.
A visita ocorre em um momento delicado. As exportações brasileiras de carne bovina à China diminuíram fortemente em agosto após o preenchimento da cota anual sujeita à tarifa reduzida. Considerando todos os produtos bovinos, os embarques ao país asiático caíram 88,2% em relação a agosto de 2025 e ficaram em 18,9 mil toneladas.
Entre janeiro e agosto, a China ainda recebeu 899,2 mil toneladas e permaneceu como o principal destino da carne bovina brasileira. No entanto, a limitação estabelecida para 2026 impede que a habilitação de mais frigoríficos se transforme imediatamente em aumento expressivo dos embarques.
As aprovações terão maior importância para os próximos ciclos comerciais e para a distribuição regional da demanda. Um frigorífico reabilitado volta a disputar animais na área onde atua, enquanto uma nova planta habilitada ganha acesso ao principal mercado da carne brasileira.
A auditoria também acontece depois de notificações chinesas sobre resíduos encontrados em produtos de origem animal enviados pelo Brasil. As ocorrências envolvem medicamentos veterinários, antiparasitários e outras substâncias submetidas a limites sanitários no país importador.
Na sexta-feira, 11, o Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa), ligado ao Ministério da Agricultura e Pecuária, concedeu prazo de dez dias para que os estabelecimentos habilitados revisem seus programas de autocontrole e demonstrem o cumprimento das exigências chinesas.
Os frigoríficos deverão reavaliar os riscos relacionados aos resíduos e reforçar a qualificação dos fornecedores. Também terão de estabelecer critérios documentados para decidir quais propriedades e animais podem integrar a produção destinada à China.
A declaração ou Carta de Garantia fornecida pelo pecuarista não deverá ser aceita como único controle quando a análise indicar riscos adicionais. Nesses casos, a indústria poderá ampliar a realização de testes, aumentar a frequência das verificações e restringir a compra de animais de fornecedores com histórico de irregularidades.
Na propriedade, a mudança aumenta a importância dos registros sobre os medicamentos administrados, as doses utilizadas e as datas dos tratamentos. O produtor também deverá observar rigorosamente o período de carência, intervalo necessário entre a aplicação de um medicamento e o envio do animal ao abate.
A presença de resíduos acima dos limites pode provocar retenção ou devolução de cargas, suspensão do frigorífico e prejuízos para toda a cadeia. Quando as ocorrências estiverem associadas repetidamente a um mesmo fornecedor, a propriedade poderá perder a condição de fornecedora de animais destinados à exportação.
O controle não significa deixar de tratar o rebanho. Medicamentos veterinários continuam essenciais para a saúde e o bem-estar dos animais. A exigência é que sejam usados com orientação adequada, dentro das doses autorizadas e com respeito ao prazo necessário para a eliminação dos resíduos antes do abate.
O reconhecimento do Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação fortaleceu as negociações para ampliar o acesso das proteínas animais ao mercado chinês. A abertura para miúdos e a habilitação de novas unidades permitiriam aproveitar melhor cada animal abatido e distribuir os ganhos por frigoríficos e fornecedores.
O resultado da missão, contudo, dependerá do que os técnicos encontrarem nas indústrias, nos laboratórios e nas fazendas. Para a China, não basta a existência de regras sanitárias no papel. Será necessário demonstrar rastreabilidade, capacidade de identificar fornecedores e resposta rápida quando surgir uma não conformidade.
A auditoria representa uma oportunidade comercial, mas também deixa um recado ao campo. A manutenção do maior mercado da carne brasileira dependerá cada vez mais do controle dentro da propriedade, porque um tratamento sem registro ou o descumprimento da carência pode fechar não apenas uma porteira, mas a saída de todo um frigorífico para a China.
Fonte: Pensar Agro
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